absinto-me de mim
Era uma segunda-feira como outra qualquer - ou seja, em meu dicionário, era dia de boemia. Aliás, noite. Noite garantida de boemia.
Mas pretendia me furtar ao delicioso hábito de rua; recolher-me em rede e lençol com o controle da minha vida e da TV em mãos. Mal saída do trabalho, passada regada a café na livraria - pegar a encomenda separada e adquirida via internet. Adoro vida moderna.
Bukowski. O último livro de poesias do Velho Safado traduzido por Cláudio Willer, o tradutor promissoramente menos traidor da atualidade.
Para quê melhor?: aconchego de casa, uísque puro, qualquer coisa na TV que fizesse barulho indistinto e "As pessoas parecem flores finalmente" (assim mesmo, sem vírgula separando o adjunto adverbial). Grande plano. Grande jogada. Grande... furo.
Foi chegar em casa, fuçar no facebook... e a garrafa de absinto do bar de toda segunda-feira e meu nome marcado. Pata caparau! isso já era conspiração! - e das mais etílicas! Mas, em pensando melhor... que melhor que ler Bukowski em ambiente de bar? E ora diachos! era segunda-feira! era já a segunda segunda-feira do mês! - que outro contumaz frequentador haveria de aparecer? seria mesmo capaz de os garçons sentarem-se à mesa comigo!
Calças de trabalho trocadas pelos shorts saí-de-casa-do-jeito-que-estava e pela primeira camiseta de rock que peguei na gaveta. Sandalinhas baixas, o chip transferido para o celular pobrinho, pode-me-levar-que-eu-não-tô-nem-aí, o dinheiro contadinho no bolso... Parti.
Em chegando, a amiga atacando uma marmita alheia em plena esquina. Comida bem temperada e já feita de há muitas horas, cheiro rançando já, do tempo dela feita e guardada por demais. Insistiu em me dar um bocado. Tentei desvencilhar-me, sabia a comida estava ainda boa - e bem temperada; mas ... o absinto é que me fazia eu me ausentar de mim, e das esquinas, e das amigas com marmitas em esquinas - acorri ao chamado encantatório da fada verde.
Na segunda dose, já estava à mesa rodeada de pessoas conhecidas. Uns de passagem, outros de ficando. E bar fechando já... (eiita! convocam, depois expulsam, é? - égua do povo, meu!)
Terceira e última dose. Precisava de mais nada. Que a fée verte chapa legal, ó!
Voltei a casa. Brinquei ainda comigo mesma e bem muito. Banhar-se é de lei. Fantasias... ah, Gilda! tu me inspiras! não tenho luvas, mas meias! Dancei sobre estrelas, ao som do batuque de tambores e berimbaus. A índia chapada pelo absinto imitando Gilda ao som de Capoeira do Besouro; quanta miscigenação.
Dormir é deixar a diversão morrer. Sair dos braços da fada para os de Oneiros.
Amanhecer bem.
Sempre que bebo absinto, é assim mesmo: ausento-me de mim. Férias de mim mesma.
E.. não; isso não é mau, não mesmo.
(Tetê Macambira)


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